Percebi uma coisa interessante esta semana. O governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, praticamente disse que as taxas de juro não irão aumentar na reunião de 28 de abril, e o mercado reagiu imediatamente. O Bitcoin ultrapassou os 74.000 dólares na segunda-feira, e não foi por acaso.



Percebem, o Banco do Japão tem um poder enorme no mercado de criptomoedas, mesmo que poucos admitam abertamente. Quando mantém as taxas baixas, o iene permanece fraco em relação ao dólar, por volta dos 160. E aqui entra o carry trade: os investidores tomam emprestado ienes a custos ridículos para investir em ativos mais rentáveis, incluindo criptomoedas. É um financiamento praticamente gratuito, que alimenta posições alavancadas em futuros.

Para entender o quão crítico isso é, basta recordar agosto de 2024. O banco surpreendeu todos com um aumento inesperado das taxas, e o que aconteceu? O Bitcoin caiu de 64.000 para 49.000 dólares em 48 horas. O carry trade desfez-se em poucos minutos, os ativos de risco foram liquidados em massa. Desta vez, Ueda fez o contrário: esfriou as expectativas, sinalizando cautela por pelo menos mais um mês.

O leilão de títulos do governo japonês a vinte anos na terça-feira confirma isso. A procura institucional foi a mais forte desde 2019, com uma relação bid-to-cover de 4,82. Os grandes capitais concordam: o ciclo de subida está em pausa. Os rendimentos caíram nove pontos base logo a seguir. Mensagem clara: o banco central japonês não fará surpresas nos próximos meses.

Enquanto escrevo, o open interest em Bitcoin nos futuros subiu 2,1 bilhões de dólares nas 24 horas seguintes à notícia, com posições líquidas longas confirmadas em criptomoedas. Parte dessa posição é financiada direta ou indiretamente pela liquidez em ienes que Ueda acabou de preservar. É o carry trade em ação.

Há também outro elemento geopolítico a considerar. O Japão depende do Médio Oriente para mais de 90% das suas importações de petróleo, que passam pelo Estreito de Hormuz. Se as negociações entre os Estados Unidos e o Irã resultarem num acordo e os preços do petróleo caírem ainda mais, a pressão inflacionária no Japão aliviar-se-ia ainda mais. O banco central teria ainda menos motivos para aumentar as taxas, estendendo a janela em que o carry trade financiado em ienes pode sustentar ativos de risco, incluindo criptomoedas.

Na prática, Ueda removeu um risco sistêmico da mesa. O teto de 73.000 dólares resistiu por seis semanas porque os ventos contrários macroeconómicos não davam motivos aos traders com alavancagem para avançar. Agora, esse vento contrário virou vento favorável. Por pelo menos um mês, o carry trade permanece intacto, e a liquidez em ienes continua a fluir para ativos de risco. É um cenário que favorece o rally, pelo menos até à próxima reunião do banco central japonês.
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